quinta-feira, junho 08, 2006

Educação, Demagogia e Engenharia Social!

A Educação torna-se, de forma cíclica, o assunto do dia e o campo onde os discursos politicamente correctos, populistas e demagógicos se entrincheiram para mais uma vez apresentarem à opinião pública, mais do que argumentos, fórmulas mágicas para alcançar o sucesso.
A estratégia está longe de ser nova e, a avaliar pelos resultados que temos, deixa muito a desejar em termos de eficácia, pois continuamos à roda com o insucesso escolar e educativo mais elevado da Europa, seja ela toda, só a da União Europeia, apenas a do Sul ou seja qual for a divisão que fizermos.
Mas periodicamente lá vem uma investida, seja a propósito de algum relatório internacional, de uma qualquer iniciativa menos entorpecedora do poder executivo ou apenas por causa de uma greve dos professores mais visível do que as outras.
Os números andam por aí à solta, para serem agarrados por quem deles precisa, conforme as ocasiões, e justificam o alarme.
Recentemente o Diário de Notícias titulava em parangonas que em 2001, 25% dos jovens dos 15 aos 24 anos não completaram o Ensino Básico e 44% não completaram o Secundário, sendo que 15-17000 todos os anos abandonam o sistema educativo sem a escolaridade obrigatória.
Só que os números são paradoxais, porque Portugal também é dos países em que existem mais licenciados sem emprego (já andam pelos 60.000, constituindo 15% dos desempregados) e cursos superiores sem alunos, pondo em risco o posto de trabalho de umas centenas de docentes do Ensino Superior.
Isto significa que temos um sistema educativo completamente distorcido e que foi sendo modelado por conveniências e agendas políticas (em especial no caso da explosão do Superior privado de final dos anos 80 e inícios de 90), mais do que por qualquer tipo de lógica ou de adequação às necessidades internas.
Afirmou-se que a Educação é um Direito, o que é verdade e muito legítimo, mas ninguém se lembrou de acrescentar que não temos um país preparado para absorver uma mão de obra qualificada, em particular quando é qualificada em áreas que são baratas de criar em termos de Ensino Superior, mas sem canais de escoamento no mercado de trabalho.
Somos, a um tempo, um país com défice educativo e excesso de qualificações para o mercado de trabalho que temos.
Porquê?
Porque o problema está, não na Escola, mas no modelo de sociedade desenvolvida e periférica que continuamos a ter, vivendo de aparências e miséria ou melhor dizendo, de miseráveis aparências.
Provavelmente, a taxa de desemprego em jovens sem a escolaridade não andará muito longe da dos recém-licenciados pois o emprego precário, não fiscalizado, que aceita carne jovem desqualificada para part-times em grandes superfícies, na construção civil ou nos bate-chapas, em troca de pouco dinheiro, se mantém florescente.
Outro equívoco, é tentar fazer esquecer que o insucesso escolar começa fora da Escola, nos ambientes familiares economicamente vulneráveis e receptivos ao abandono escolar em troca de 40-50 contos mensais, escondidos ao Fisco e à Segurança Social.
Porque são muitas as famílias que sentem ser mais rentável (claro que numa perspectiva de curto prazo) o emprego precário do miúdo complicativo, sempre a querer ter os ténis da moda, do que a aposta numa escolaridade mais longa que, em boa verdade, também não garante entrada no mercado de trabalho.
Assim, torna-se quase mais racional deixar um filho ou filha sair do sistema educativo aos 16-17 anos com 2 ou 4 repetências para ir trabalhar (”o miúdo não tem jeito para a escola, o que ele precisa é de uma profissão”), do que esperar até aos 22, 23 ou 24 anos para tirar um curso, cujo resultado final é ser demasiado qualificado para os empregos disponíveis.
E a formação profissional que por aí tem andado, mesmo naquelas versões esquisitas arranjadas à pressa para dar um 9º ano de papel, também não conseguem resolver nada, porque tantas vezes são mais desenhadas a pensar nos interesses dos formadores amigos do que no futuro dos formandos.
Mas, para o discurso político e principalmente para a acção política, reformar a sociedade e desenvolver a economia, por forma a reduzir as crescentes bolsas de exclusão social, é algo demasiado árduo e complicado.
É mais fácil burocratizar o insucesso escolar e mandar os professores passar os meninos e meninas à força, sem atender ao facto de continuarem iletrados nas áreas básicas do conhecimento, de maneira a ter estatísticas mais coadunáveis com um estatuto europeu.
O atraso educativo português é tema de debate há quase 200 anos, desde os alvores do regime liberal e sempre se tentou encontrar nele a razão do atraso económico.
Só que a relação é inversa: o atraso económico e a debilidade financeira das famílias é que sempre desencorajou um maior investimento na escolaridade, se outra razão não fosse válida, porque muitos percebem que também não é uma estadia mais longa no sistema educativo que dá uma garantia de sucesso.
Mas os esforços de Engenharia Social têm sido muitos ao longo das décadas, para ocultar a evidência de ser a Educação a chave para o nosso Progresso, mas de ser necessária uma Educação de qualidade, rigorosa e passível de ter tradução posterior num mercado de trabalho capaz de absorver a massa cinzenta produzida pela Universidades.
Ora, como as estatísticas quanto à fuga de cérebros demonstram, nós nem conseguimos agarrar muitos dos nossos (escassos pelos padrões ocidentais) melhores quadros superiores, como vamos querer fazer crer que estar mais tempo na Escola terá um retorno económico (porque isto da cultura não se come ao pequeno-almoço e muito menos à janta…)?
Mas lá se vai empurrando a carroça, colocando-a à frente dos bois.
Milhentos Cursos Superiores a formar desempregados de luxo, condenados a aldrabar currículos para ter um lugar de caixa de supermercado ou de secretária de uma empresa.
E milhentos estratagemas para dar a escolaridade básica a quem não tem meios fora da Escola, para conseguir alcançar um verdadeiro sucesso escolar ou educativo.
E mais milhentos especialistas espalhados por gabinetes ministeriais, grupos de trabalho e comissões de estudo para analisarem a questão e darem a sua sagaz solução, resultado de muitas horas de comparação de números e leituras de relatórios nacionais e internacionais.
Mas tentar resolver o problema de uma sociedade crescentemente fracturada, com um crescente fosso de rendimentos e com uma obsessão pelo consumo instalada em todos os grupos sociais, isso não, porque dá demasiado trabalho.
A solução é a Educação, nem que seja à força, às cegas, pelo menos para cumprir metas estatísticas.
Mas para mais nada.
Paulo Guinote in Associação de Professores de História

1 Comments:

Anonymous Professor de História said...

Gostei do artigo. Muita matéria para reflexão!

quinta-feira, junho 08, 2006  

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