terça-feira, julho 18, 2006

Estatísticas, abstracções, interrogações!

Já sabemos - basta consultar os dados estatísticos que o Ministério divulga - que o insucesso escolar é absurdamente elevado. Já sabemos que, em cada ano lectivo, centenas de milhares de alunos não conseguem transitar de ano. Já sabemos que o secundário chumba um terço dos seus alunos e que, no final do 12.º, cerca de metade fica à porta da universidade. Sabemos que a reprovação atinge quase um quarto dos alunos do 7.º ano e quase metade do 10.º ano. Já sabemos que, no 2.º ano, acontece uma primeira degola dos inocentes. E que a taxa de retenção e desistência passa de 7,8 por cento no quarto ano de escolaridade para 14 por cento no quinto. Já sabemos que pouco ou nada melhorou, desde meados da década de 90. Já sabemos isso tudo. E depois?...
Prevejo que, em breve, as estatísticas apresentem evolução positiva. Os alunos dos cursos tecnológicos e artísticos, à semelhança do que acontece com os dos cursos profissionais, apenas terão de fazer exames nacionais, se quiserem ir para a universidade. E também porque sucederá uma natural inflação nas notas, acaso o Ministério insista no disparate de os pais virem a participar na avaliação dos professores...
O Ministério aprovou mais algumas regras de avaliação. Entre as inúteis medidas ministeriais, prevê-se a obrigatoriedade de as escolas realizarem planos de recuperação dos alunos que terminaram o primeiro período lectivo com três ou mais negativas. E o acompanhamento dos alunos que, mesmo assim, vierem a chumbar. Mais do mesmo…
Os governos sucedem-se. Só o insucesso e as medidas avulsas não variam. As propostas são sempre remediativas, não logram atingir o âmago do problema.
Há mais de trinta anos, venho escutando as ladainhas dos ministérios e das corporações. Ao longo de dezenas de anos, conheci professores que acreditaram nas boas intenções dos poderes e na solidariedade dos pares. Vi esses professores fazerem maravilhas com os seus alunos, acreditando ser possível melhorar a escola. Assisti às suas tentativas de sensibilização de outros professores das suas escolas. Vi os seus projectos serem destruídos. Vi como os professores crentes eram destruídos por professores cínicos.
Cansei-me de ver a comunicação social dar guarida a espertalhões que atingem o topo de venda de livros, criticando o "eduquês". Eu também o critico, porque muita da literatura das ditas ciências de educação não passa de literatura de cordel. E é tal a distância entre os devaneios teóricos e a realidade das práticas, que certas teses não passam de ficção científica. Porém, aqueles que erigem as "novas pedagogias" em bode expiatório de todas as culpas do sistema desviam a discussão do essencial. Apenas contribuem para a desorientação geral. E os críticos das "novas pedagogias" nem sequer conseguem apontar o nome de uma só escola que desastrosamente pratique as "novas pedagogias", que prodigamente glosam nos seus best-sellers.
Cansei-me dos discursos desculpabilizadores dos que recusam reflectir as suas práticas, dos que recusam melhorá-las (melhorando a aprendizagem dos alunos) e que se julgam no direito de "não querer". Cansei-me de ver que os professores não conseguem recuperar a sua auto-estima e reivindicar o reconhecimento social que lhes é devido, porque o corporativismo os adormece com anestésicos discursos. Quando verão os professores que o seu estatuto social somente se elevará afirmando a possibilidade da mudança e não rejeitando responsabilidades. A "resistência à mudança" é um conceito polissémico. Talvez alguém o tivesse inventado para dar razão a quem recusa mudar...
Velha e quase inútil, a Escola agoniza. Os sucessivos ministérios vão-lhe aplicando pensos rápidos. Os corporativismos vão-lhe injectando morfina. Talvez porque a eutanásia seja proibida, ninguém ponha cobro ao sofrimento. A quem convém que a escola se mantenha em vida vegetativa? Em educação, não existe neutralidade. Se aqueles que reproduzem práticas bolorentas se interrogassem e procurassem saber a que senhor estão servindo, talvez chegassem à compreensão das perversões a que as suas práticas conduzem. Talvez viessem a compreender, por exemplo, que o tipo de gestão do tempo que a sua escola adopta (idêntico ao de milhares de outras escolas) restringe o desenvolvimento de relacionamentos sociais e intelectuais saudáveis. Talvez viessem a compreender o que Henry Giroux há muito escreveu: "com os seus cronogramas e relacionamentos hierárquicos, a rotina da maior parte das salas de aula actua como um freio à participação e aos processos democráticos".
A abstracção "turma", encarada como um todo homogéneo, ostraciza a evidência da especificidade de cada aluno. Na maioria das vezes, o aluno limita-se à recepção de conceitos a que pouco ou nenhum significado atribui. A abstracção "aula" (ritual que parte do errado pressuposto de ser possível ensinar a todos como se fosse um só) suscita desinteresse e desmotivação.
Quem se interroga? Quem interroga práticas obsoletas? Quem se interroga sobre as razões profundas do insucesso?
Os educadores deveriam adoptar a postura crítica que levou alguém a perguntar: por que razão os anjinhos papudos da talha barroca só têm cabeça e asas?
José Pacheco in EDUCARE

José Pacheco é mestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto. Foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.

6 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Os críticos do "eduquês" defendem a seguinte tese: "o essencial na formação de professores é o conhecimento da matéria que ensinam". Falso. Em 1941, um emérito pensador, nascido no Porto, tentava sobreviver nos difíceis tempos de Salazar. Escreveu um opúsculo intitulado "A vida de Robert Owen". Lá vem a seguinte frase lapidar: "um homem instruído pode não ser um homem educado". Um ano depois, os nazis dedicavam-se à solução final. Quem comandava as operações de extermínio dos judeus? Engenheiros instruídos construiram as câmaras de gás e médicos e enfermeiras licenciadas assassinavam crianças e bebés. Muito desta mentalidade mantém-se hoje em dia. É esta a educação que queremos?

terça-feira, julho 18, 2006  
Anonymous Lucília Ramos said...

Ora aqui está um verdadeiro tema de debate! Como irão os educadores, alunos, pais e demais cidadãos deste país, pôr em prática uma nova forma de ''compreender'' o mundo? Esta será a reflexão exigida no momento: "O desfazer dos pertences de uma velha educação". Se a situação for sentida como preocupante e importante por uma grande parte de uma sociedade, exigindo uma tomada de medidas para a sua alteração, estamos perante um ''feito histórico'' que mudará todo o rumo de uma sociedade. Temos de acreditar que somos donos do nosso destino e que é urgente rasgarmos o véu que cobre o nosso medo. Alguém disse: "O que o Mundo mais teme é a opinião dos outros. E no momento de deixar de ter medo da multidão, deixa de ser um carneiro e torna-se um leão. Um grande rugido eleva-se do seu coração, o rugido da LIBERDADE!..."

terça-feira, julho 18, 2006  
Anonymous Humberto Nogueira said...

A questão é mesmo essa... a escola tradicional bafienta pernece incólume nos seus tempos, espaços, currículos, métodos e forma de pensar e olhar. A maioia das medidas deste Governo é uma mera alteração de circunstância, quantitativa e superficial. O mais grave não é isso.. o mais grave é termos os nossos responsáveis da Educação a propagandear as suas medidas como "REFORMAS". Eu não sei quem tentam enganar, mas o certo é que o país está embalado nessa cantilena demagógica. Daqui a algum tempo se perceberá que não há reforma nenhuma porque tudo continua na mesma. O essencial permanece inalterável. Não sei se os nossos responsáveis da Educação pensam mesmo que estão a fazer reformas..., ou se, pelo contrário, sabem que não as estão a fazer, mas dizem que estão..... qualquer uma das hipóteses é baixa demais... e vamos passar mais um Ministro da Educação sem que a escola portuguese siga um rumo com futuro melhor...Para a próxima poderiam experimentar um professor no ministério, que tal?

terça-feira, julho 18, 2006  
Anonymous Gabriela Correia said...

Pois, continue-se a falar de escola de excelência, e fechem-se os olhos ao que está a acontecer no mundo do trabalho: alunos que fizeram entre 50 a 60 cadeiras na Universidade e que se deparam com empregos da "treta", onde não recebem nem o salário mínimo, porque os empregadores estrangeiros que cá os exploram ameaçam ir para outros países de mão-de-obra escrava se o Governo não lhes der cobertura. Como se pode exigir a um jovem que estude com afinco sob tão escuras perspectivas de futuro? Falo por experiência própria. A minha filha critica, agora, a Escola por esta não elucidar os alunos quanto à realidade. É também verdade que a sociedade moderna altera as regras do jogo a uma velocidade estonteante que a escola não consegue acompanhar. Mal se lançam as bases para se rumar numa determinada direcção mais consentânea com a realidade e se envidam esforços para a sua consolidação, logo a mudança brusca e sem aviso prévio torna tudo inviável. Que mundo este onde tudo é descartável!

terça-feira, julho 18, 2006  
Anonymous Joaquim Ferreira said...

Esta frase é elucidativa: "Quando verão os professores que o seu estatuto social somente se elevará afirmando a possibilidade da mudança e não rejeitando responsabilidades." Aliás todo o texto é um hino ao "eduquês". Continua a falar da escola dos anos 60 estando nós em 2006. É curioso verificar o autoritarismo dos "especialistas" da educação. Depois de terem imposto o modelo "eduquês" na escola pública, originando uma geração incapaz de interpretar um texto, de escrever um parágrafo ou de realizar operações aritméticas simples, continuam a achar o seu modelo perfeito...! Para justificarem o facto de a escola pública se ter tornado um factor de exclusão social, atiram as culpas para os professores. Um conselho, assumam as vossas responsabilidades e voltem atrás enquanto ainda existe escola pública para muitos, porque para todos já não existe como é óbvio, basta ver onde as classes média e média alta inscrevem os seus filhos...!

terça-feira, julho 18, 2006  
Anonymous Anónimo said...

Hoje, todos falam de Educação. Agora, criticam-se os ditos especialistas da educação... Hora das flechas conservadoras! Mas muitas destas, criticando as pedagogias activas, apregoando certezas,só conheceram uma sala de aula como alunos...não têm a mínima ideia de como se trabalha diariamente com 25 crianças num cubículo que alguém resolveu apelidar de sala de aula. Culpabilizar as pedagogias modernas quando sabemos que elas não estão verdadeiramente enraizadas nas escolas? Os professores são progressistas nas ideias mas conservadores nas práticas (João Barroso).E o insucesso escolar não se desvanece! Quando um professor tem apenas 48 euros mensais para comprar material de desgaste para a sala de aula, ou quando uma aluna com dificuldades de aprendizagem beneficiou de somente 7 horas de apoio educativo individualizado durante todo o ano lectivo...a culpa é de quem? Até eu estou a ficar cansado...e sou novo...e progressista nas ideias e nas práticas. A luta continua! Escudos ao alto!

terça-feira, julho 18, 2006  

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