sábado, setembro 23, 2006

Infelizmente

O que se está a fazer na Educação não é diferente do que se faz noutros sectores da sociedade portuguesa. Trata-se de criar uma realidade virtual assente numa política de aparências!

É verdade que o insucesso e o abandono escolar são uma realidade. O que não é possível é alterar-se este panorama à custa da cedência no nível de exigência feita aos alunos.

Termos um enorme sucesso escolar reflectido em estatísticas e relatórios internacionais é importante do ponto de vista político e propagandístico! É simpático prestar contas positivas a Bruxelas! Mas será sério?

Será positivo para o país ver transitar de ano escolar alunos que não atingiram o mínimo exigível? Que preparação transportarão para o mercado de trabalho? Que compreensão terão acerca de conceitos como esforço, dedicação, profissionalismo? Não estaremos a construir uma enorme mentira?

Há que fazer alguma coisa, isso é tão óbvio como urgente, mas não mascaremos o insucesso. Comecemos por onde tem de ser, pelo princípio!

É essencial repensar o 1º Ciclo do Ensino Básico! É aqui que tudo começa! É aqui que os alunos adquirem as ferramentas essenciais para o prosseguimento dos estudos.

Se queremos elevar o nível de aproveitamento nas nossas escolas teremos de começar por fazer algo tão simples como reduzir as turmas de 1º Ciclo para 10/12 alunos por professor!

Alguém imagina ser possível um professor fornecer bases consistentes de Português, Matemática, História ou Geografia a 20 crianças com idades entre os 6 e os 9 anos?

Tal feito foi conseguido no passado por professores respeitados na sociedade, a quem era reconhecido um estatuto completamente diferente daquele que gozam hoje e recorrendo muitas vezes à velhinha e ultrapassada “régua castigadora”!

O mundo mudou, a pedagogia evoluiu, as práticas alteraram-se mas uma criança continuou a ser uma criança!

Há que modificar as condições e o primeiro passo é redobrar a atenção prestada a cada aluno o que só é possível reduzindo drasticamente as turmas.

Existem apenas duas razões para o não fazer: um desconhecimento total da realidade da sala de aula, por parte de quem politicamente, fechado num gabinete toma decisões ou, políticas meramente economicistas que condicionarão de forma decisiva o futuro da escola pública e do próprio país.

Portugal habituou-se ao eterno recomeço e este passa sempre numa primeira análise por encontrar responsáveis fora da esfera política. Porque também é assim no que à Educação diz respeito falemos então de responsabilidades!

A sociedade portuguesa em geral, ébria de aparências, preocupações e compensações, que continua a assistir pacificamente ao eterno adiamento de Portugal, não exerce uma cidadania consciente, confunde democracia com liberdade e demite-se da paternidade.

Os sucessivos governos das últimas três décadas que insistem em não definir um rumo e uma estratégia de desenvolvimento para o País.

O Ministério da Educação, entidade responsável pela criação de recursos humanos que, não existindo uma verdadeira estratégia de desenvolvimento nacional, vai produzindo uma série de políticas avulsas, contraditórias e muitas vezes perfeitamente desligadas da realidade.

O Ensino Superior, público e privado, egocêntrico e mercantilista, responsável pela formação de professores, que continua a vender a ilusão do lugar ao sol, abandonando todos os anos milhares de jovens desempregados teoricamente doutores em alguma coisa!

Os Conselhos Executivos das escolas, órgão fundamental na organização e gestão do espaço escolar, muitas vezes liderados por maus professores, sem capacidade mobilizadora para implementar culturas de equipa e de sucesso.

Os professores, com condições de trabalho pouco dignificantes e diariamente desrespeitados por todos, desmotivados e muitas vezes acomodados, vão permanecendo na carreira por falta de alternativa.

Não é necessário grande esforço para adivinhar quem constitui o alvo mais fácil de abater no exercício de apontar responsáveis. A actual equipa do Ministério da Educação fez a escolha mais cómoda!

É evidente que enquanto elementos envolvidos no processo educativo os professores terão a sua quota parte de responsabilidades mas será que é por eles que se deve começar? Começa-se por eles porque são uma classe frágil e são-no por culpa própria!

3 Comments:

Anonymous Joana Gonçalves said...

Parabéns pelo seu texto! De uma forma muito objectiva traça o cenário de descalabro que se vive num sector de primordial importância.

domingo, setembro 24, 2006  
Anonymous Anónimo said...

"O Ensino Superior, público e privado, egocêntrico e mercantilista, responsável pela formação de professores, que continua a vender a ilusão do lugar ao sol, abandonando todos os anos milhares de jovens desempregados teoricamente doutores em alguma coisa!"
Aqui não mexem eles pois toda a gente sabe que a classe politica acumula "tachos" nas universidades estando nas tintas para a seriedade e viabilidade profissional dos cursos que leccionam. Desde que "o" deles venha ao fim do mês...

domingo, setembro 24, 2006  
Blogger pedro_nunes_no_mundo said...

"Está a cheirar-me que és um perigoso professor a resistir à mudança natural dos tempos, a opor-se à avaliação porque tem algo a temer, a lutar contra o trabalhar mais horas como os outros portugueses, blá, blá, blá..:"

Já piquei o ponto.
Alguém tinha de vir aqui fazer este discurso, certo?...

Ainda que não seja preciso ser muito esperto (e professor ou não) para perceber que a análise que fazes é pertinente, lúcida e certeira.

Mas qual dos discursos é mais popular?
O teu: do "está tudo mal" (porque está mesmo!!), ou o do "andamos aqui com um problema chamado cancro dos professores que temos de extirpar"?

Não podemos esmorecer.
Daqui a vinte anos os nossos filhos pedir-nos-ão contas.

segunda-feira, setembro 25, 2006  

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