sábado, maio 19, 2007

Violência na escola


Colegas obrigam criança com cancro a deixar a escola

O Miguel ainda não foi às aulas este período. Há um somatório de episódios a atormentar a sua memória. Chamam-lhe "surdo", por ter perdido parte da audição com os tratamentos. Chamam-lhe "porco", por não usar o balneário. Um dia, um dos rapazes apanhou-o no corredor e "obrigou" outro a puxar-lhe as calças, enquanto lhe chamava "aquilo que é o contrário de gostar de mulheres". Já lhe aconteceu encontrar a mochila "cheia de ranho"...

É um miúdo de 12 anos, magro, delicado, com uma voz infantil. A pedopsiquiatra remeteu uma declaração para a escola em Março. A lembrar que Miguel sofreu um cancro, vários internamentos, quimio e radioterapia. A lembrar que, por isso, apresenta sequelas diversas - debilidade física, fragilidade emocional, dificuldade de reacção a pressões psicológicas. A lembrar que é vítima de bullying (intimidação continuada). A dar conta de um "processo depressivo". A recomendar mudança de turma e urgente "intervenção clínica do Gabinete de Psicologia da escola, no sentido de ajustar os comportamentos dos jovens implicados". Mas a mudança, formalizada pelos pais desde o início do ano lectivo, não chega.

De que lhe serve mudar de turma se o recreio é o mesmo? "Se eles me tentassem fazer alguma coisa nos intervalos, tinha a outra turma para me proteger", responde, num tom de voz que é quase um murmúrio o aluno do 7.º ano da Escola Básica 2,3 n.º 2 de Rio Tinto. Presume que a outra turma poderia ser preparada para o acolher no seu seio como um igual.

Lizete Cardoso e o marido esforçaram-se. Semana após semana, deslocaram-se à escola para sensibilizar a directora de turma. "Até lhe oferecemos o livro A Sala de Aula sem Bullying, de Allan L. Beane, com propostas de trabalho." "Imensas vezes" pediram-lhe, e à presidente do conselho executivo (CE), para mudar o seu filho de turma. Assustaram-se quando a pedopsiquiatra falou em "risco de agravamento do quadro clínico, com eventuais passagens ao acto em termos de auto-agressividade". Findas as férias da Páscoa, decidiram não arriscar. Preferem não levar o filho às aulas a vê-lo definhar.

Recorreram à Inspecção-Geral da Educação (IGE). Agostinho Santa, coordenador da área de provedoria, enviou, a 23 de Abril, uma carta ao CE a salientar que "interessa, sobretudo, atender aos direitos pessoais e educativos" do menor. A recomendar, de forma explícita, a resolução do problema, "ainda que para tal seja necessária a tomada de decisões com carácter de excepcionalidade". Ironia: a escola tem um CE interino desde 24 de Abril. O presidente interino, Laureano Valente, não responde pela antecessora, que até ali tomara conta do caso. Considera que "a mudança de turma, no momento actual, é um cenário a excluir, por razões de ordem pedagógica". A mudança dever-se-á fazer no início do próximo ano lectivo, com cuidado, para que nada se repita.

Miguel não tem tido uma relação fácil com o sistema educativo. No 1.º ciclo, passou dois anos isolado por força dos tratamentos. No regresso às aulas, no 4.º ano, tinha de comer qualquer coisa às 9h00 e de tomar um fortificante no intervalo. "A professora levou-me ao CE, disse que o meu filho perturbava as aulas por comer uma bolachinha", indigna-se a mãe. No 5.º ano, a turma transplantou-se quase toda para a EB 2,3. Miguel não se sentia acarinhado, mas também não se sentia agredido. "Não falavam comigo, não brincavam. Só isso." No último período do 6.º ano, escutou os primeiros insultos. Nos corredores, no recreio. Quando "ninguém estava a ouvir".

No início, eram apenas três miúdas bem conhecedoras da sua história clínica. Para se proteger, Miguel deixou de sair da sala de aula nos intervalos. O professor avisou os pais. Eles sugeriram logo uma mudança de turma, mas o professor desaconselhou tal acto. Era uma turma "muito competitiva", era "bom para ele" estar ali. As férias grandes passaram e Miguel regressou às aulas. Como os rostos hostis eram os mesmos, permanecia longe do recreio. A professora tê-lo-á tentado forçar a sair e ele terá batido o pé, argumentando que tinha os seus "direitos de criança", que não o podiam obrigar. Os pais perceberam que "estava em pânico". Inquietaram-se. Correram a pedir a tal mudança de turma. Os insultos repetiam-se. Miguel era aluno de 3 e 4 valores. Este ano, inaugurou-se nas negativas. Duas no primeiro período, três no segundo.

Talvez um miúdo saudável aguentasse. Talvez os outros pais achem os de Miguel "maluquinhos" ou "chatos" por insistirem tanto na mesma tecla. E isso que importa a Lizete e ao marido? O filho "já sofreu muito, já mostrou ser um grande lutador. Agora, está bem, mas nunca se sabe".

Tinha sete anos quando lhe foi diagnosticado um cancro no sistema nervoso central. "A vida é uma coisa para curtir", diz.

in PÚBLICO

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

bullying é algo tido como patético por todos!!

A minha filha mais velha sofreu desta "intimidação continuada" durante 2 anos lectivos. 1º fisicamente, depois psicologicamente. Eu e o Pai, qdo nos apercebemos procuramos actuar com ela e com a escola... foi em Novembro de 2006.

Chegados ao final do ano lectivo a escola não actuou, apenas a prof. titular. A criança terminou o ano com notas acima do habituasl... iniciou as férias de Verão aterrada com a visão de mais um ano!!!!
Eu sou profª e fiz tudo com serenidade, sem atropelos...até que decidimos mudar a nossa filha de escola. Ela está bem e já visitou a escola antiga para catarse!
A outra criança... irá ser assim pela vida fora sem que ninguém a trave!?
E a coordenadora de escola? Continua a sua vidinha!!!
Porque esta mãe, professora, era ansiosa!!!

quinta-feira, dezembro 27, 2007  

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