terça-feira, junho 12, 2007

"Flor de estufa"

Associação de Matemática convidada a deixar comissão após criticar a ministra

Um comunicado da Associação de Professores de Matemática (APM) em que criticava declarações proferidas pela ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, levou o ministério a sugerir à organização o abandono da comissão de acompanhamento do Plano da Matemática.

O "convite" foi feito por Luís Capucha, director-geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular, no dia em que as críticas às declarações de Maria de Lurdes Rodrigues foram divulgadas pela comunicação social.

"Pela primeira vez o país associará os resultados não apenas à performance dos alunos, mas também ao trabalho das escolas e dos professores, para o melhor e para o pior", disse a ministra a propósito dos exames nacionais do 9.º ano, no final de uma reunião de balanço do primeiro ano do Plano da Matemática, a 11 de Maio.

Poucos dias depois, a APM reagia em comunicado, criticando a "ausência de sentido pedagógico" e a "leitura muito simplista e redutora do que é esse trabalho e a educação."

"No dia em que a notícia saiu no PÚBLICO, recebemos um telefonema do director-geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular a dizer que deveríamos sair da comissão", conta Rita Bastos, presidente da APM.

"Houve uma tentativa para que o ministério formalizasse esse convite por escrito, o que não aconteceu. A 30 de Maio, numa reunião da comissão de acompanhamento em que estive presente, o dr. Luís Capucha reiterou a posição de que, no entender dele, as críticas implicavam a saída da APM. Disse que, como fazíamos parte da comissão, não podíamos manifestar críticas publicamente. Nesse dia abandonámos a comissão."

Rui Nunes, assessor de imprensa do Ministério da Educação, diz que o entendimento foi o de que, com o comunicado divulgado, a APM se "auto-excluiu" do processo, escusando-se a dar mais explicações.

"Como associação profissional, a APM não pode, de modo nenhum, comprometer a sua independência em relação ao ME. Temos o direito e o dever de manifestar as nossas opiniões. Além disso, as declarações da ministra também foram públicas", sublinha Rita Bastos, garantindo que em "20 anos de história e várias parcerias com vários governos", nunca tinha acontecido à APM confrontar-se com "esta reacção de alguém dizer que não se pode criticar publicamente" um programa.

No comunicado em causa, a APM sustentou que "mudanças relevantes e duradouras em educação não acontecem num ano e projectos como os que estão em curso nas escolas têm que ser avaliados por indicadores mais apropriados que não são certamente os exames, instrumentos muito limitados e pouco adequados para a avaliação deste tipo de intervenções." As críticas da associação estendiam-se ainda ao atraso nos apoios previstos pela tutela.

Na sua página na Internet, a APM assegura que "continua disponível, como sempre tem estado, para apoiar os professores e os seus projectos nas escolas e para promover as aprendizagens matemáticas dos alunos."

O Plano da Matemática foi lançado em Junho de 2006 e implicou que as escolas, depois de reflectir sobre os maus resultados nos exames nacionais do 9.º, elaborassem estratégias de melhoria, solicitassem apoios e calendarizassem os objectivos a atingir ao longo dos próximos três anos. As metas foram fixadas em contratos assinados entre o ME e 1070 escolas com 2.º e 3.º ciclos do básico. O plano tem um orçamento de nove milhões de euros e envolveu já quase 300 mil alunos e mais de 10 mil docentes.

in PÚBLICO