segunda-feira, junho 18, 2007

Época das provas nacionais começa hoje


Nem aulas suplementares no final do ano nem exercícios feitos em cima da hora. Não se pode reler o Memorial do Convento na véspera, nem aprender, de um dia para o outro, a interpretar um texto. Então, como se faz? A época das provas nacionais começa hoje e o exame de Português do 12.º ano é o que tem mais inscritos. O PÚBLICO foi saber como é que as escolas que em 2006 tiveram melhores resultados nesta disciplina prepararam os seus alunos.

"Tento não dar muito valor ao exame", diz, descontraída, Sónia Carvalho, coordenadora de Português no Colégio Manuel Bernardes, em Lisboa. "O exame é um fim natural, eles estão habituados a fazer testes ao longo do ano e os que fazemos na escola têm exactamente a mesma estrutura" da prova oficial.

Ou seja, a professora pode até não falar muito de exames com os alunos, e eventualmente desvalorizar um bocadinho a carga do momento, quanto mais não seja para não lhes causar tensão. Mas a verdade é que nesta escola até a forma "em caderninho" dos exames oficiais foi adoptada nas provas que foram sendo feitas ao longo do ano. Tudo para que eles se habituassem. Sabe-se que, quanto mais familiarizados estão com o formato, menos ansiedade terão no "dia D". "Nos exames, alguns até se enganam a escrever o próprio nome no cabeçalho, de tal forma estão nervosos", admite a docente.

"As cartas, as sínteses, os resumos, as composições... treina-se muito isso. Se os alunos conseguirem escrever e interpretar bem, conseguem ter as armas essenciais para enfrentar a prova" nacional, explica, por seu lado, Isabel Ruivo, coordenadora do Departamento de Língua Materna da Escola Básica e Secundária de Chamusca. Ficar a postos para fazer um bom exame, garante, "é todo um trabalho de um ciclo, nem sequer é de um ano só".

Duas escolas distintas

No ranking das escolas secundárias elaborado pelo PÚBLICO em 2006, o Manuel Bernardes obteve uma média de 15,05 valores, a melhor do país. Em segundo lugar, surgia a escola de Chamusca, com 14,79 de média, a mais alta no exame obtida por uma estatal. Mas se as duas "melhores" escolas a Português até parecem partilhar estratégias, as semelhanças ficam-se por aí.

A Manuel Bernardes, fundado pelo padre Augusto Gomes Pinheiro, é uma escola particular, na capital do país, frequentada sobretudo por alunos de famílias com um estatuto socioeconómico acima da média, que pagam mais de 370 euros por mês para os filhos poderem fazer ali o secundário. Já a de Chamusca é uma escola pública frequentada por jovens que vivem a 30 quilómetros da cidade mais próxima, que são, na sua maioria, filhos de "famílias humildes", sem grande acesso a recursos culturais para além dos que existem na escola, lembra Isabel Ruivo.

Ambas as escolas têm um corpo docente estável, o que permite que, ao longo de cada ciclo, as turmas sejam acompanhadas por um mesmo docente. Tanto Sónia Carvalho como Isabel Ruivo destacam muito este ponto. Um corpo de professores estável permite um "bom trabalho de equipa", que resulta, por exemplo, na adopção dos mesmos critérios usados nos exames nacionais na elaboração das provas que se fazem ao longo do ano, bem como na sua correcção.

Os professores dão muito de si, mas é preciso também "que os alunos estejam disponíveis para receber", lembra por outro lado Isabel Ruivo. E os bons resultados no exame da disciplina — o estabelecimento de ensino já tinha ficado bem colocado a nível nacional em 2005 — dependem igualmente disso. "No ano passado, os alunos estavam muito motivados." Motivar é, pois, outra palavra de ordem.

Nada de aulas de apoio

No Colégio Manuel Bernardes, foram organizadas, para os alunos do 9.º ano (amanhã é a vez de eles mostrarem o que aprenderam a Língua Portuguesa), aulas de apoio, com um horário previamente definido, já em período de férias. Mas no 12.º é diferente. A professora ofereceu-se para tirar as últimas dúvidas através do messenger e disponibilizou-se, na semana passada, para estar dois dias na escola à espera de quem dela precisasse. Aulas suplementares não há.

Joana Gato, de 17 anos, Sara Baptista, de 18, e Joana Soares, de 17, apareceram na tarde de terça-feira, mas não por causa do Português. Querem todas seguir cursos de Saúde. Precisam todas de notas altas, mas nem por isso parecem ansiosas. Era aos livros de Química que vinham abraçadas.

Na Chamusca, também não há aulas de apoio a Português. No máximo, os professores disponibilizam-se para uma reunião, entre a semana que medeia o final das aulas e o dia do exame, onde se tiram as últimas dúvidas. Não mais do que isso. "A preparação para o exame começa no 10.º ano", insiste Isabel Ruivo.

As alunas do Manuel Bernardes estão confiantes. "Nas últimas semanas, fizemos uma revisão da Terminologia Linguística para os ensinos básico e secundário", conta uma. E este fim--de-semana, se tiverem cumprido o planeado, deram "uma revisão no Pessoa, que está um pouco mais esquecido".

"Estamos muito dependentes destas provas. Contam 30 por cento para a nota. Qualquer coisa e podem estragar-nos a média", diz Joana Gato. Por isso, por muito que se estejam a preparar há anos, e que sejam as ciências o que mais ansiedade desperta — até porque são essas disciplinas que mais contam para quem quer seguir um curso de Saúde —, hoje os nervos dificilmente vão ficar em casa. "Nós também ficamos nervosos por eles", garante Isabel Ruivo.

in PÚBLICO