quarta-feira, dezembro 19, 2007

Mais de 120 mil alunos chumbaram no ensino básico em 2006


São os dados mais recentes sobre a percentagem de alunos que chumbam no ensino básico e confirmam a tendência dos últimos anos. As taxas de insucesso têm vindo a diminuir, mas a um ritmo muito lento. Desde 1995/1996 até 2005/2006, desceram menos de cinco pontos percentuais. Nesse ano lectivo, um em cada dez estudantes não passou, ou seja, mais de 120 mil no total, indicam os números apurados pelo Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação.

Outro dado recentemente revelado pelo último relatório internacional sobre educação (o PISA - Programme for International Students Assessment, da OCDE) mostra que a situação em Portugal só tem paralelo com mais dois países desta organização: Espanha, que apresenta taxas de retenção mais altas (entre os alunos de 15 anos) e o Luxemburgo, com uma situação mais favorável.

De resto, praticamente metade dos 30 Estados-membros da OCDE têm percentagens de chumbos inferiores a dois por cento, mostrando que nestes países este é um mecanismo de controlo da avaliação utilizado apenas em casos extremos, mesmo entre os que têm melhores resultados escolares. A média ronda os três por cento.

Taxas e repetência

"É um facto real que os países que não têm repetência, ou que têm taxas baixas, apresentam também melhores resultados escolares medidos em termos de aprendizagem. Em todos os estudos internacionais se verifica esta correlação alta entre o peso da repetência na amostra e os desempenhos", comenta o secretário de Estado da Educação, Valter Lemos.

E está por provar que, em Portugal, os chumbos sejam uma medida eficaz, reforça. "O sistema de retenção foi instituído há muitos anos como o principal sistema de recuperação dos alunos. O que é extraordinário é que tem recuperado muito poucos jovens. Mas continuamos a acreditar nisso." Mais grave, continua, é que "os estudos também dizem que quem repete um ano tem uma maior probabilidade de o repetir outra vez - quem abandona o sistema tem um peso enormíssimo de repetência".

Se o sistema falha, pergunta-se então por que razão não se avança para modelos alternativos. E aí, Valter Lemos argumenta com o peso da tradição e das expectativas. "Enquanto houver a ideia generalizada de que a repetência é o único sistema de recuperação dos alunos, não serve de nada tentar mudar a situação de forma administrativa. Isso não ia levar à interiorização do problema, mas ao contrário. A reacção iria ser: "Lá estão eles a facilitar"", justifica. "Temos de continuar a reforçar os sistemas de apoio e de recuperação e percursos alternativos, de forma a fazer baixar as taxas de retenção [ver texto nestas páginas]."

Os mais complicados

Voltando aos dados do insucesso, verifica-se que os problemas surgem logo no início da escola. Se no 1.º ano a taxa de retenção é de zero por cento, pela simples razão de que a lei não permite chumbar, no ano imediato acontece o primeiro tropeção. Ainda que a situação esteja melhor do que em 1996, ainda afecta quase 10 por cento dos alunos. Ou seja, em 2006, mais de 11 mil meninos registaram aos 7 anos o seu primeiro fracasso.

A evolução ao longo dos anos também mostra que é no 3.º ciclo, e em particular no 7.º e 9.º anos, que as taxas são mais altas, com um quinto dos alunos a não conseguir passar. Mas por razões distintas.

Em relação ao 7.º, os investigadores são unânimes em considerar que é o embate da transição de ciclo que se faz sentir de forma muito pronunciada (o número de chumbos duplica do 6.º para o 7.º ano).

"Temos o problema de ter provavelmente as mais duras transições de ciclo da maior parte dos países. De um ano para o outro, os alunos mudam de espaço físico, de número de professores, de organização de tempo de estudo. Estamos a pagar os efeitos de uma série de opções feitas ao longo de muitos anos, em que o sistema foi organizado em função dos professores e de outras razões e não dos alunos e da sua continuidade educativa", argumenta o secretário de Estado.

A revisão do currículo do ensino básico, nomeadamente ao nível do 3.º ciclo, é uma das medidas que estão a ser estudadas para atenuar o problema.

Já em relação ao 9.º ano, em que as taxas de insucesso estão actualmente acima do que acontecia há dez anos, a explicação será outra. A introdução de exames nacionais a Matemática e Português (e que valem 30 por cento na nota final da disciplina) em 2005 fez o número de chumbos voltar a subir consideravelmente: de 13 para 21 por cento.

Assim, em 2005/2006, foram mais de 23 mil os alunos que ficaram retidos no final da escolaridade obrigatória.


in PÚBLICO

6 Comments:

Anonymous Diogo A., Guimaraes said...

É sempre típico destes ineptos políticos olharem só para um dos lados da moeda. Na Alemanha, assim como em outros países, a taxa de reprovação é baixa porque logo aos 10-11 anos existe a selecção dos alunos. Quem tiver mau aproveitamento nos exames (REPITO: LOGO AOS 10-11 anos) é logo encaminhado para o ensino técnico e profissional. Os alunos fracos não andam como aqui a perder tempo e a reprovarem em nome de uma ficção chamada ESCOLA INCLUSIVA. Censurar as reprovações, não impondo disciplina, exigência nas escolas e não oferecendo oferta técnico-profissional pelo menos no 7.º ano (se não mais cedo), demonstra claros sinais de incompetência e irresponsabilidade. O futuro de um país está nas mãos destes senhores... Valha-nos Deus!

quarta-feira, dezembro 19, 2007  
Anonymous Anónimo said...

Se alguém é responsável pelo estado a que o ensino e a educação chegou em Portugal é claramente o poder político e os ministros da educação: são estes que definem as orientações que as Escolas e seus agentes devem seguir e como estas orientações mudam constantemente, logo não há educação que resista. Neste aspecto, os ministros PS podem orgulhar-se de terem dado cabo da educação em Portugal (aliás, ao que parece a ministra MLR diz que só tem de responder ao PS pela sua política), pode cada um deles resolveu fazer as suas "experienciazinhas" educativas, independentemente de alunos e professores. É bom não esquecer que o sistema educativo deve ser "conservador" por natureza e não se passar a vida a inovar sem qualquer critério que não a vontade do ministro/ministra, sobretudo quando se odeia tudo o que é voz contrária. É que estes passam e os resultados são os que se vêem. Também é bom lembrar as grandes responsabilidades do PS na educação desde 1975, com ministros e Secretários de Estado como Vitorino Magalhães Godinho, Sotomayor Cardia, Almerindo Marques (esse mesmo!), Ana Benavente, Augusto Santos Silva, Marçal Grilo, Lurdes Rdrigues, Walter Lemos, Oliveira Martins e muitos outros... E os incompetentes são os professores e os alunos? Aliás, porque razões os professores deputados do PS não abrem a boca na Assembleia da República? Claro que é muita mais fácil ser deputado, estar calado e ser reeleito do que dar aulas nas actuais condições criadas... pelo próprio Partido Socialista. Haja alguém que ponha termo a isto!

quarta-feira, dezembro 19, 2007  
Anonymous Anónimo said...

Sem querer fazer comparação com outros países, nós temos um problema que é muito nosso , a falta de educação do povo em geral. Experimentem passar à frente por distracção numa fila do autocarro ou do supermercado e verão o diálogo que se vai gerar... Olhem para os lados e observem gente a cuspir para o passeio, a dizer palavrões... Vai levar algum tempo a mudar... Não culpem os professores portugueses... Um finlandês abandonaria a profissão quinze dias depois de entrar numa escola pública portuguesa, por mais preparação que tivesse... Melhorem as condições de trabalho dos professores para que tenham oportunidade de ministrar um ensino mais prático... E se quiserem saber um pouco mais do bem sucedido sistema finlandês http://www.youtube.com/watch?v=y0XrYW2FaqE. Vão ficar a saber que para frequentar algumas aulas de ciências, os alunos são seleccionados. Ah, como eu adoraria dar aulas naquele país!

quarta-feira, dezembro 19, 2007  
Anonymous Anónimo said...

1. Nas ágeis e governamentais explicações do caso português e da terapia salvífica, a passagem de ano facilitada, porque se esquece que um dois outro países, além da vizinha Espanha, com elevada taxa de insucesso escolar é o Luxemburgo? Sítio onde a formação média é muito elevada, mas... é o Estado da UE onde a percentagem de portugueses é a 2ª maior, muito destacada da 3ª, a seguir a Portugal. 2. O artigo compreende ainda um exemplo do défice de preparação lem ógica no ensino português. O sr. secretário Valter com base no pressuposto, que ele invoca, de nos países com menos «chumbos» o nível de conhecimentos dos alunos ser superior, retira uma conclusão notável então deve facilitar-se passagem (ou transição no eduquês), de ano, ou seja passam e o conhecimento surge por força do divino (nem sequer lhe ocorre que é por o nível de conhecimentos ser inferior que existem mais chumbos, apesar de provavelmente haver menos exigência, daí que mesmo os que passem tenham em média um nível de conhecimentos inferior).

quarta-feira, dezembro 19, 2007  
Blogger ♥≈Nღdir≈♥ said...

Os meus sinceros votos de BOAS FESTAS.
Espero que o Pai Natal seja generoso e que distribua muito amor, paz, saúde e carinho.

Mil Beijos ≈©≈♥Ňąd¡®♥≈©≈

quarta-feira, dezembro 19, 2007  
Blogger Victor Gonçalves said...

Naturalmente que a razão dos maus resultados no PISA não se deve às reprovações, mas às causas que conduzem às reprovações. Parece-me que o debate devia começar aqui, e só aqui.

quarta-feira, dezembro 19, 2007  

Enviar um comentário

<< Home