quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Sindicatos duvidam que haja condições para alargar escola a tempo inteiro ao segundo ciclo



As duas maiores federações de sindicatos da Educação consideram que não existem condições para aplicar o modelo "escola a tempo inteiro" ao segundo ciclo, embora se digam defensoras do conceito.

"Este alargamento ao segundo ciclo é desejável desde que se garanta que estão reunidas as condições que permitam que as remunerações dos formadores sejam compatíveis com a dignidade da função que lhes é pedida, que haja condições físicas para o desenvolvimento dessas actividades [extracurriculares] e que as escolas não sejas prejudicadas", afirmou à Lusa João Dias da Silva, da Federação Nacional dos Sindicatos da Educação (FNE), referindo-se a "constrangimentos, limitações e insuficiências" da aplicação do modelo ao primeiro ciclo, resultado da "falta de planificação".

Em entrevista à agência Lusa, a ministra da Educação anunciou o alargamento ao segundo ciclo o conceito de "escola a tempo inteiro" que introduziu na antiga primária, reorganizando o horário e o currículo, nomeadamente através da concentração de disciplinas.

Maria de Lurdes Rodrigues explicou que o modelo será muito semelhante ao do primeiro ciclo, sendo remetidas para "o final do dia" as actividades de enriquecimento curricular ligadas às expressões e ao estudo acompanhado, de forma a "concentrar na parte lectiva o essencial das actividades associadas à aquisição de competências básicas".

No âmbito da revisão do currículo do segundo ciclo, que estará concluída até Março, o Ministério da Educação quer ainda concentrar algumas disciplinas para reduzir o número de docentes a leccionar em cada turma.

A ministra explicou que as escolas nunca puseram em prática um mecanismo que permitia que um só professor leccionasse um conjunto de disciplinas à mesma turma, como Matemática e Ciências ou Língua Portuguesa e Inglês, por exemplo, apesar de o currículo prever essa possibilidade.

"Se quisermos reduzir o número de professores vamos ter de arranjar outros mecanismos. É necessário estimular as escolas para que façam uma concentração das áreas disciplinares para que os alunos possam ter uma visão mais integrada do conjunto das disciplinas que têm", acrescentou.

João Dias da Silva considera esta concentração de disciplinas "desejável para professores e alunos", porque ao trabalharem com menos pessoas diferentes, haverá uma aproximação entre docentes e estudantes.

Para o presidente da FNE, "da aplicação desta regra não resulta uma diminuição da necessidade de professores nas escolas, mas apenas uma gestão diferente de pessoal, a menos que se faça uma coisa inaceitável que seria a redução da carga horária de cada disciplina."

Também Mário Nogueira, secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), diz ser partidário da "escola a tempo inteiro", mas considera que o modelo já adoptado para o primeiro ciclo não tem qualidade e prejudica mesmo a componente lectiva, pelo que desconfia do seu alargamento ao segundo ciclo.

"O prolongamento escolar deve ter actividades de carácter lúdico e não actividades de mais escola depois da escola. Há uma desresponsabilização do ministério para as câmaras, que podem tomar decisões sem o devido acompanhamento", disse Mário Nogueira à Lusa.

Quanto à concentração de disciplinas, o secretário-geral da Fenprof diz desconhecer "em que estudo se baseia o ministério" para tomar esta medida.

"Ao contrário do que diz a senhora ministra não há 16 professores no segundo ciclo [por turma]. Já há professores por área disciplinar. Pensamos que se trata de mais uma tentativa de redução de professores. Estamos perante um projecto que o Ministério da Educação justifica com argumentos de pseudo-melhoria, de melhoria da qualidade de ensino, quando é apenas uma redução de recursos humanos e uma medida economicista".


in LUSA