quarta-feira, abril 09, 2008

Falando em INÚTEIS


Sobre os Professores - a Miguel de Sousa Tavares

É do conhecimento público que o senhor Miguel de Sousa Tavares considerou “os professores os inúteis mais bem pagos deste país.” Espantar-me-ia uma afirmação tão generalista e imoral, não conhecesse já outras afirmações que não diferem muito desta, quer na forma, quer na índole. Não lhe parece que há inúteis, que fazem coisas inúteis e escrevem coisas inúteis, que são pagos a peso de ouro? Não lhe parece que deveria ter dirigido as suas aberrações a gente que, neste deprimente país, tem mais do que uma sinecura e assim enche os bolsos? Não será esse o seu caso? O que escreveu é um atentado à cultura portuguesa, à educação e aos seus intervenientes, alunos e professores. Alunos e professores de ontem e de hoje, porque eu já fui aluna, logo de “inúteis”, como o senhor também terá sido. Ou pensa hoje de forma diferente para estar de acordo com o sistema?
O senhor tem filhos? – a minha ignorância a este respeito deve-se ao facto de não ser muito dada a ler revistas cor-de-rosa. Se os tem, e se estudam, teve, por acaso, a frontalidade de encarar os seus professores e dizer-lhes que “são os inúteis mais bem pagos do país.”? Não me parece… Estudam os seus filhos em escolas públicas ou privadas? É que a coisa muda de figura! Há escolas privadas onde se pagam substancialmente as notas dos alunos, que os professores “inúteis” são obrigados a atribuir. A alarvidade que escreveu, além de ser insultuosa, revela muita ignorância em relação à educação e ao ensino. E, quem é ignorante, não deve julgar sem conhecimento de causa. Sei que é escritor, porém nunca li qualquer livro seu, por isso não emito julgamentos sobre aquilo que desconheço. Entende ou quer que a professora explique de novo?
Sou professora de Português com imenso prazer. Oxalá nunca nenhuma das suas obras venha a integrar os programas da disciplina, pois acredito que nenhum dos “inúteis” a que se referiu a leccionasse com prazer. Com prazer e paixão tenho leccionado, ao longo dos meus vinte e sete anos de serviço, a obra de sua mãe, Sophia de Mello Breyner Andersen, que reverencio. O senhor é a prova inequívoca que nem sempre uma sã e bela árvore dá são e belo fruto. Tenho dificuldade em interiorizar que tenha sido ela quem o ensinou a escrever. A sua ilustre mãe era uma humanista convicta. Que pena não ter interiorizado essa lição! A lição do humanismo que não julga sem provas! Já visitou, por acaso, alguma escola pública? Já se deu ao trabalho de ler, com atenção, o documento sobre a avaliação dos professores? Não, claro que não. É mais cómodo fazer afirmações bombásticas, que agitem, no mau sentido, a opinião pública, para assim se auto-publicitar.
Sei que, num jornal desportivo, escreve, de vez em quando, umas crónicas e que defende muito bem o seu clube. Alguma vez lhe ocorreu, quando o seu clube perde, com clubes da terceira divisão, escrever que “os jogadores de futebol são os inúteis mais bem pagos do país.”? Alguma vez lhe ocorreu escrever que há dirigentes desportivos que “são os inúteis” mais protegidos do país? Presumo que não, e não tenho qualquer dúvida de que deve entender mais de futebol do que de Educação. Alguma vez lhe ocorreu escrever que os advogados “são os inúteis mais bem pagos do país”? Ou os políticos? Não, acredito que não, embora também não tenha dúvidas de que deve estar mais familiarizado com essas áreas. Não tenho nada contra os jogadores de futebol, nada contra os dirigentes desportivos, nada contra os advogados. Porque não são eles que me impedem de exercer, com dignidade, a minha profissão. Tenho sim contra os políticos arrogantes, prepotentes, desumanos e inúteis, que querem fazer da educação o caixote do( falso) sucesso para posterior envio para a Europa e para o mundo. Tenho contra pseudo-jornalistas, como o senhor, que são, juntamente com os políticos, “os inúteis mais bem pagos do país”, que se arvoram em salvadores da pátria, quando o que lhes interessa é o seu próprio umbigo.
Assim sendo, sr. Miguel de Sousa Tavares, informe-se, que a informaçãozinha é bem necessária antes de “escrevinhar” alarvices sobre quem dá a este país, além de grandes lições nas aulas, a alunos que são a razão de ser do professor, lições de democracia ao país. Mas o senhor não entende! Para si, democracia deve ser estar do lado de quem convém.
Por isso, não posso deixar de lhe transmitir uma mensagem com que termina um texto da sua sábia mãe: “Perdoai-lhes, Senhor
Porque eles sabem o que fazem.”
artigo recebido pelo Eduquês

4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

O Sr. Sousa Tavares é muito cáustico e diz disparates tremendos sobre vários grupos profissionais.
O Sr. Sousa Tavares deveria talvez pronunciar-se mais sobre: pseudo-jornalistas, políticos, os inúteis mais bem pagos do país ele fala muito pouco e sobretudo sobre escritores que fazem obra à custa do talento alheio segundo dizem.

Eu não quero acreditar mas está qui escrito.
http://revista-atlantico.blogspot.com/2006/10/miguel-sousa-tavares-e-o-plgio_27.html

Dinis.

sexta-feira, abril 11, 2008  
Anonymous Luis said...

O Miguel Sousa Tavares pode ter algumas qualidades a nível jornalistico e literário, mas é uma pessoa sem grande capacidade ou competência para falar sobre temas de ensino ou educação. descconheço se alguma vez abordou este tema de forma séria. O jornalista é muito conhecido por ser um fanático portista e só escrever de forma fundamentalista sobre futebol.
Esta crónica que fez e que só vi o titulo é frontalmente contra os professores, não me interessa e não quero sequer ler, acho que é uma perda de tempo dar importancia a pessoas que já só escrevem em jornais pelo prestigio que têm e porque são mediaticos, mas já não escrevem nada de interessante.
Pessoas como estas não dão valor nenhum á escola porque não necessitaram da escola, porque tiveram uns pais que eram escritor e advogado que lhes proporcionaram uma educação de elites, por isso este senhor despresa o nosso sistema educativo e os nossos profissionais de ensino. Mas este senhor devia lembrar-se que nem todos os portugueses podem ter o previlégio de ter uma mãe chamada Sofia de Melo Brayner. E que é essencial para os nossos jovens terem bons Professores, motivados e Bem Pagos é uma obrigação de um Estado Inteligente e Sensato.
Por isto, MSTavares deveria passar a escrever só de assuntos para os quais está mais capacitado, sobre futebois e Pintos da Costa e Anti-Benfica, para isso sim ainda tem os seus adeptos fieis.

sexta-feira, abril 11, 2008  
Anonymous Anónimo said...

è de lamentar que julgava eu que o Miguel tivesse um pouco mais de senso, todavia são estes que hoje são comentadores daquilo que de nada sabem.Eu queria era mesmo ver este individuo a dar uma aula com aquela cara de poucos amigos e mal penteado e com aquela arrogância toda. Concerteza que tinha à perna os encarregados de educação.

sexta-feira, abril 18, 2008  
Anonymous Maria Marques said...

De facto, haverá que reconhecer que, num aspecto, Miguel Sousa Tavares acaba por ter alguma percepção sobre o caminho para o qual o actual sistema educativo está, intencionalmente, a arremeter os professores. De um modo estulto e néscio, asfixiado pelo preito oco que deve às suas convicções políticas, apenas consegue desferir o seu juízo sobre os docentes, e não sobre aqueles que diligentemente lhes conferem um papel cada vez mais passivo na educação e na cultura do País, assoberbando-os com empreitadas burocráticas, pedagogias obtusas e pervertidas que permitam resultados mascavados a apresentar aos Portugueses e aos parceiros europeus. Os professores já não podem nem devem ler. Passaram a ser meros instrumentos passivos, de uma política somente preocupada com os resultados estatísticos dos índices presenciais de alunos e docentes numa escola, num devaneio insciente e autista sobre todo o logro que lhe está por trás. E é aqui, em meu entender, que Miguel Sousa Tavares revela a fraqueza dos seus níveis de compreensão, como muitos dos seus leitores. Não serei eu, professora, a esclarece-lo, porque se deixei de ter tempo para os meus alunos, que teimosamente ainda tomo por principais alvos das minhas preocupações, muito menos o consumirei a retratar o que é a inutilidade daquilo a que se chama “Ensino” ou “Educação” a um eminente jornalista e escritor. Creio que lhe competirá a si, Dr. Miguel Sousa Tavares, fazer essa pesquisa, quiçá mais profícua para o País, do que a que faz, em vários périplos pelo mundo, para os seus romances.

Maria Marques, professora

quarta-feira, setembro 17, 2008  

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